Patrícia Lopes tem 38 anos, é casada, tem dois filhos (a Rita com 16 anos e o Afonso com 14) e uma vida profissional activa. Com um espírito positivo, vive um dia de cada vez e da melhor forma possível. É com a mesma postura que aprendeu a aceitar o diagnóstico de artrite reumatóide e que lida com a doença com um bonito sorriso e uma energia contagiante.
Começou por acordar com fortes dores nas mãos e nos pés diariamente. Sintomas que melhoravam ao longo do dia mas que voltavam inesperadamente. “A certa altura, deixei de conseguir andar de manhã”, confessa Patrícia Lopes. Perante a sintomatologia, resolveu procurar ajuda no médico de família, mas “não se chegava a nenhuma conclusão concreta”. Depois de ter sido aconselhada a consultar o reumatologista António Vilar, “o diagnóstico não foi muito demorado, ao contrário de outros casos que conheço”.
Patrícia já tinha filhos quando soube que tinha artrite reumatóide, e desengane-se quem pensa que esta é uma doença que só afecta os mais idosos. “Foi um choque porque nunca tinha ouvido falar da doença. Achei que era um ‘bicho’ e não sabia bem o que me ia acontecer. Fiz imensa pesquisa acerca de terapêuticas em vários países. Cheguei mesmo a ir aos Estados Unidos da América à procura de soluções e cheguei facilmente à conclusão de que não há grandes diferenças entre os tratamentos que se praticam fora do nosso país.” Patrícia decidiu pesquisar mais informação na Internet, onde encontrou “milhares de informações”. Algumas delas deixaram-na confusa, mas congratula-se por ter alguns médicos na família que sempre a fizeram sentir “bem orientada e aconselhada”.
O facto de saber que sofria de uma doença crónica nunca assustou Patrícia. “No meu caso, pensava mais nas implicações que esta doença tem. A artrite reumatóide provoca alguma limitação física e afecta um pouco a parte emocional. O que me assusta mais é a incapacidade ou a falta de mobilidade a longo prazo”, confessa.
Reacção familiar
Os filhos de Patrícia Lopes eram pequenos e a mãe optou por lhes contar que tinha artrite reumatóide quando já tinham idade para perceber a mensagem. “Um dos tratamentos que faço é injectável e eu não queria que lhes fizesse confusão. Optei por lhes contar. Foi duro, mas positivo. Os meus filhos aceitaram, agarram-se a mim aos beijinhos e vivem perfeitamente bem com esta realidade. Com o tempo, foram percebendo que a doença faz parte da nossa vida.” A doença de Patrícia até dá direito a alguns “miminhos”. “Se chegar a casa com compras, o meu filho vai automaticamente ajudar-me. Não é porque não consigo agarrar num saco que vou ficar deprimida. Tenho uma família maravilhosa que me apoia incondicionalmente. Os meus amigos também são incansáveis”, diz-nos.
Nunca sentiu vergonha de falar da sua doença. Pelo contrário, sente que tem a capacidade de dar a volta por cima e de encarar a artrite reumatóide como enfrenta as adversidades do dia-a-dia. “Sei que não é fácil para uma pessoa com 60 anos manter essa mesma postura.”
Dia-a-dia normal
Apesar de algumas limitações que a doença acaba por trazer, Patrícia Lopes tem uma vida perfeitamente normal. “Já me custa carregar um saco de compras e tenho alguma dificuldade a esse nível.” Nunca sentiu necessidade de trabalhar. Aliás, o seu médico acaba por lhe dizer que “se vinga no trabalho” porque lhe ocupa o tempo e a mente. “Tenho uma profissão completamente incompatível com o meu estado de saúde, mas não me vi obrigada a mudar de emprego. Tenho a sorte de contar com pessoas que trabalham comigo, que me ajudam imenso e me dão o apoio de que necessito.”
É da opinião de que o trabalho facilita a doença, pois “de nada vale ficar em casa a pensar nos problemas”. Para conduzir, optou por um carro de mudanças automáticas com direcção assistida, para lhe facilitar as deslocações.
Como outros doentes de artrite reumatóide, sente alguma dificuldade em cortar fruta ou descascar batatas, mas pede ajuda ao marido para o fazer. “Custa-me também lavar a cabeça, mas também arranjo uma boa solução. Peço ao meu filho ou a algumas amigas sem qualquer tipo de vergonha”, confessa.
Tratamentos regulares
A medicação de Patrícia Lopes é semanal e tem alguns efeitos secundários incómodos, como a diminuição de resistência e o aparecimento de náuseas. “É aqui que entra a guerra comigo própria, porque pensava que conseguia controlar tudo e os efeitos secundários ultrapassam-me”, confessa entre risos. Recorre também a medicinas alternativas que a fazem sentir melhor porque a ajudam a aliviar a tensão e o stress. “Estive há pouco tempo na Índia a fazer alguns tratamentos com base em plantas. Obviamente, não cura, mas alivia a tensão e fazem-me sentir melhor! A medicação controla a evolução da doença e os anti-inflamatórios minimizam as dores. Vou fazê-la toda a vida e pode ser ajustada consoante a evolução da doença”, explica.
Além da medicação, tem consultas regulares de reumatologia, pelo menos, de três em três meses. “Se sentir necessidade, posso ligar ao meu médico, que, acima de tudo, é um grande amigo.”
Encarar a doença de frente
Patrícia Lopes encara a artrite reumatóide conforme vive a vida. “Arranjo sempre soluções para todos os obstáculos. A melhor forma de enfrentar a vida é com positivismo e tentarmos viver da melhor maneira os problemas que nos são dados, para que possamos evoluir como seres humanos. É óbvio que não sou positiva todos os dias e também tenho os meus momentos menos bons.” Aprendeu a colocar todos os problemas num mesmo patamar, sejam os familiares, os profissionais, os do dia-a-dia ou mesmo os que a doença lhe provoca. “Vivo o dia-a-dia. Amanhã logo se vê! Sou precavida em relação ao futuro de forma a evitar as complicações da patologia, mas não vivo por antecipação. Se tenho uma doença que me é limitativa e me pode dar alguma incapacidade, tento garantir o meu futuro e o dos meus filhos. A vida é maravilhosa e há que tentar vivê-la na busca incessante de felicidade. A felicidade é um estado de espírito”, acrescenta.
Nesta entrevista ao Jornal do Centro de Saúde, e na sua vida quotidiana, tenta passar esta mensagem positiva a outros doentes. “Cada um deve encontrar o seu caminho. As pessoas têm de valorizar o que têm de bom na vida, como por exemplo, filhos ou netos saudáveis. Há a tendência de alguns doentes se afundarem nos seus problemas e não olharem em redor. Se eu tivesse um filho doente, sofreria muito mais.” Conclui afirmando que “há que dar a importância ao simples acto de sair à rua, apanhar sol e vento na cara. Temos de avaliar o significado destes momentos que só se vivem uma vez.”
Por Cláudia Pinto, Jornal do Centro de Saúde