1) O diagnóstico de Xerostomia
A boca seca ou xerostomia é um dos sintomas fundamentais do Síndroma de Sjögren.
Através da História Clínica, caracteriza-se a duração, frequência e gravidade da secura oral, avalia-se a presença de secura em outros órgãos (olhos, pele, vagina, vias respiratórias) e recolhe-se o historial médico completo, incluindo o uso de medicamentos.
Através do Exame Físico, as glândulas salivares são examinadas quanto à presença de dor, induração ou aumento de tamanho. É avaliada a presença ou ausência de saliva na boca, a presença de inflamações da mucosa oral, labial ou da língua, e a presença e extenção de cáries dentárias.
O Estudo Funcional das glândulas salivares pode ser feito através da Sialometria, que mede, através de vários métodos, a quantidade de saliva produzida num determinado período de tempo, ou pela Cintigrafia, que avalia a capacidade das glândulas salivares de elaborarem e eliminarem a saliva.
A Avaliação Estrutural das glândulas salivares pode ser realizada a grande escala (macroscópico), através da sialografia (exame radiográfico com injecção de contraste dentro dos canais das glândulas, já em desuso), ecografia, TAC ou ressonância magnética, ou em pequena escala (microscópico), através da biopsia e exame histológico de glândula salivar minor do lábio, que revela um processo inflamatório com aspecto característico.
2) O diagnóstico de Xeroftalmia
O olho seco ou xeroftalmia é outro dos sintomas fundamentais do Síndroma de Sjögren.
Pela História Clínica procura-se caracterizar a presença, duração e intensidade das queixas de secura ocular, bem como a presença de secura em outros órgãos. No caso do olho seco, é particularmente importante a história farmacológica (além dos medicamentos anteriormente referidos, os fármacos de aplicação ocular para tratamento do glaucoma são importantes causadores de secura) e ocupacional (a exposição a ambientes secos ou ventosos e o trabalho prolongado ao computador acentuam a perda de lágrima).
O Exame Físico pode fornecer alguma informação quanto à presença de olho seco, nomeadamente a redução da quantidade de lágrima que se acumula na margem da pálpebra inferior ou o aspecto pouco brilhante e irregular da superfície do olho.
O Estudo Funcional das glândulas lacrimais pode ser realizado na consulta de Reumatologia com o teste de Schirmer (avalia a produção de lágrima através de uma tira de papel absorvente que é colocada na margem palpebral), ou em Oftalmologia por métodos mais sensíveis, como o “Break-Up Time” ou coloração por Rosa de Bengala ou Verde de Lissamina, que revelam dano na superfície da córnea (queratite seca).
A Avaliação Estrutural das glândulas lacrimais raramente se realiza, mas no caso de se realizar biopsia, os aspectos microscópicos são semelhantes aos encontrados nas glândulas salivares.
3) O diagnóstico de Manifestações Sistémicas
A identificação de manifestações sistémicas do Síndroma de Sjögren depende do seguimento periódico dos doentes na consulta de Reumatologia ou de Medicina Geral e Familiar, uma vez que são relativamente pouco frequentes e de aparecimento imprevisível. Através do interrogatório sistemático nas consultas e do exame físico dirigido às queixas referidas, é possível suspeitar ou confirmar o envolvimento de órgãos extra-glandulares. Nesses casos são então pedidos exames complementares para confirmar a sua presença e avaliar a gravidade, sendo o tratamento específico iniciado pelo Reumatologista ou por outro especialista a quem o doente seja enviado (Pneumologia, Neurologia, Nefrologia, etc.).
4) O papel do Laboratório
Por certo os doentes com Síndroma de Sjögren reparam que o Reumatologista valoriza muito as análises, e que por vezes pede exames menos comuns. Isto deve-se ao facto de que no Síndroma de Sjögren as análises clínicas têm um papel fundamental no diagnóstico e na vigilância da actividade da doença ou do aparecimento de complicações.
Como doença inflamatória que é, o aparecimento de anemia ligeira é frequente (chamada “anemia de doença crónica”) e ocorre elevação dos marcadores de inflamação (velocidade de sedimentação e proteína C reactiva). No Síndroma de Sjögren é frequente a diminuição do número de leucócitos (glóbulos brancos), sobretudo do subgrupo dos linfócitos (mais frequentemente), dos neutrófilos (mais específico do Síndroma de Sjögren) ou de ambos. A diminuição das plaquetas é menos frequente, e raramente atinge valores preocupantes.
A sua origem auto-imune traduz-se na produção de vários auto-anticorpos (anticorpos que atacam estruturas do próprio organismo), dos quais os anti-SSA e anti-SSB são fundamentais para o diagnóstico, apesar de os ANA e os Factores Reumatóides serem mais comuns. Existe um aumento da actividade dos linfócitos e plasmócitos (células que produzem anticorpos), com aumento da concentração de imunoglobulinas (anticorpos), produção de crioglobulinas (anticorpos que causam inflamação vascular) e redução dos factores do complemento (que significa que existe actividade do sistema imunitário). Com o passar dos anos, é possível que a produção de imunoglobulinas aumente e que um grupo particular de linfócitos idênticos (chamado de clone) se autonomize, originando a chamada gamapatia monoclonal, que é um factor de risco para o desenvolvimento de doença linfoproliferativa.
5) A Confirmação do Diagnóstico
O Síndroma de Sjögren é uma doença relativamente difícil de diagnosticar, uma vez que as manifestações mais frequentes – secura oral e ocular, entre outras – não são específicas e podem ocorrer em pessoas com outras doenças reumáticas ou sob determinadas terapêuticas, e podem evoluir lentamente, não alertando o doente ou o médico para a possibilidade de existir uma doença responsável pelas queixas.
Para confirmar o diagnóstico de Síndroma de Sjögren, o Reumatologista fundamenta-se em vários aspectos da história, exame clínico e exames complementares.
A presença de secura oral, ocular ou de outras mucosas, acompanhadas ou não de outras manifestações comuns em doenças reumáticas sistémicas, como o fenómeno de Raynaud, as aftas orais, a fotossensibilidade ou outras alterações da pele, devem fazer suspeitar de Síndroma de Sjögren. A ocorrência de manifestações extra-glandulares, como artrite, neuropatia, envolvimento pulmonar ou vasculite, numa pessoa com queixas de secura, torna provável o diagnóstico de Síndroma de Sjögren.
Um grupo internacional de peritos elaborou um conjunto de critérios de classificação para o Síndroma de Sjögren, que pode ajudar os médicos a chegar ao diagnóstico. Estes critérios requerem a presença de queixas de secura oral ou ocular, que deve ser confirmada através de estudos funcionais (ver acima), e obrigam à demonstração de uma base imunológica das queixas secas, mediante a presença de anticorpos anti-SSA e/ou anti-SSB e/ou biopsia de glândula salivar com presença de inflamação característica do Síndroma de Sjögren.
Dr. Filipe Barcelos