Bruno Fialho ficou conhecido dos portugueses quando foi ‘chamado’ pelo Sindicato Nacional dos Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP) para mediar o conflito entre motoristas e Governo durante a apelidada crise dos combustíveis. Ligado durante décadas ao Sindicato Nacional do Pessoal de Voo e Aviação Civil (SNPVAC), o advogado viria a ser, depois das últimas autárquicas, desafiado por Marinho e Pinto para se candidatar a presidente do PDR, cargo a que chegou em janeiro deste ano.

Em entrevista ao Notícias ao Minuto, Bruno Fialho assume que quer “colocar o partido acima do lugar que já teve”, critica a falta de humildade de quem “representa os portugueses” e aponta a classe média como uma das bandeiras da qual não abdicará.

“Uma pessoa não pode ser considerada rica simplesmente porque ganha acima do salário mínimo”, diz. Um salário “que é de quase escravidão”, aponta.

Bruno Fialho deixa ainda duras críticas ao Governo por insistir na celebração do 25 de Abril no Parlamento, defendendo que se trata de uma questão de respeito pelo povo que está sujeito ao confinamento. Lamenta ainda que o Presidente da República vá participar “no espectáculo”.

Sem “complexos ideológicos”, enquanto estiver à frente do PDR, garante, não terá dificuldades em dialogar e a chegar a compromissos com partidos de todos os espectros, da Esquerda à Direita. “O bem-estar social” está acima de tudo, defende.

Como é que surgiu a oportunidade de se apresentar como candidato à liderança do PDR?

Foi o doutor Marinho e Pinto quem fez o convite. E não foi fácil [aceitar] porque substituir uma personalidade tão forte e tão marcante como é a dele. Mas falei com muitos militantes e constatei que a grande maioria me dava o seu apoio. E, portanto, aceitei.

Sou uma pessoa de fortes convicções e já com muitas lutas travadas e ganhas nos direitos dos trabalhadores

O seu ‘sim’ não foi instântaneo?

Não foi instantâneo até porque, devo dizer, tinha tido muitos convites para ingressar noutros partidos políticos e até de maior dimensão. E nunca o aceitei porque não queria estar – tal como outros políticos que todos conhecemos – penhorado aos poderes instalados e aos lóbis que existem. Sou uma pessoa de fortes convicções e já com muitas lutas travadas e ganhas nos direitos dos trabalhadores. Por isso acredito no projeto do PDR.

E pode confidenciar que outros partidos já o tiham abordado?

Seria indelicado da minha parte estar a divulgar convites de partidos que rejeitei à partida. Mas como é evidente, e eu sempre disse, que nunca me iria vender a nada nem a ninguém. E cumpri as minhas palavras. E exatamente por isso acredito na luta contra a corrupção, na luta por uma melhor economia, mais diversidade e menos refém de factores externos, melhores condições de trabalho e salários. Também é uma das razões porque estamos aqui agora, a ter que nos preparar muito bem para o período pós pandemia.

Daqui a algum tempo, depois de passarmos esta pandemia, poderemos vir a fazer uma conferência em conjunto com grande número de pequenos partidos

Depois de ter sido eleito, em janeiro, disse que a intenção é “recolocar o partido no lugar que já foi seu por direito”. Qual é que é a estratégia? Como é que tenciona chegar lá?

Eu quero colocar o partido acima do lugar que já teve. As medidas a médio e a longo prazo têm a ver com ganhar lugares em autarquias, em 2021, e, mais tarde, termos deputados na Assembleia da República. Neste momento, estamos mais ativos do que nunca. Neste momento estamos a criar a juventude democrática que não existia no partido. Também estou a falar com outros partidos políticos, ao contrário do que fazia o meu antecessor. Muito orgulho tenho nele [Marinho e Pinto], mas tenho uma personalidade mais abrangente de forma a conseguir reunir mais consensos com diferentes áreas partidárias. Tenho falado com os pequenos partidos para, em determinados momentos, nos juntarmos todos e conseguirmos falar aos portugueses, em conjunto, das dificuldades que sentimos. Os órgãos de comunicação social normalmente só dão voz a quem já tem assento parlamentar e isto é uma luta que une todos os pequenos partidos que se querem fazer ouvir e, por vezes, se não muitas vezes, têm mais razão do que aqueles que nos governam a cada momento governam.

O diálogo com esses partidos tem sido fácil?

Sim, tem sido bastante fácil, acessível. Já me conheciam de outras situações, tanto da Esquerda à Direita. Considero que consigo reunir o consenso dos pequenos partidos políticos para a questão da falta de visibilidade. E daqui a algum tempo, depois de passarmos esta pandemia, poderemos vir a fazer uma conferência em conjunto com grande número de pequenos partidos.

Não quero fazer uma comparação ao que muitas pessoas passaram durante o tempo da ditadura, mas o que se passa hoje em dia em Portugal, ao nível do ‘lápis azul’, que foi o símbolo da censura daquela época, é muito similar

Está a conversar com os pequenos partidos para, no fundo, se unirem na luta contra a falta de visibilidade que têm. Pretende ser uma espécie de porta-voz dos pequenos partidos?

Penso que seria, no mínimo, indelicado da minha parte querer ser porta-voz de outros partidos, principalmente quando os convites que enderecei foram enviados de boa-fé e no sentido de nos juntarmos para combatermos a falta de informação que os portugueses têm sobre os pequenos partidos e que prejudica a democracia. Caso o encontro entre os pequenos partidos seja realizado, com todos ou apenas com alguns, considero que não deve existir um porta-voz, exactamente para não desviarmos atenções daquilo que é importante, ou seja, da necessidade e da urgência de por uma vez por todas existir uma verdadeira democracia em Portugal.

A título de exemplo, nesta semana o tema mais falado no nosso país, para além da Covid-19, foi a questão das comemorações do 25 de Abril. Não quero fazer uma comparação ao que muitas pessoas passaram durante o tempo da ditadura, mas o que se passa hoje em dia em Portugal, ao nível do ‘lápis azul’, que foi o símbolo da censura e daquela época, é muito similar, pois os grandes partidos dominam todo tempo de antena, os órgãos de comunicação social, na sua grande maioria, só escrevem sobre os mesmos e todos os comentadores pertencem aos grandes partidos.

Aqui realço que a culpa não é dos jornalistas, mas sim dos lóbis que tomaram a comunicação social e o nosso país, pois, hoje em dia, aqueles profissionais vivem uma época de ‘lápis azul’ adaptada aos nossos dias, já que basta não estarem alinhados com os ‘donos’ da comunicação que são rapidamente eliminados ou sancionados, veja-se o que tem acontecido às jornalistas Ana Leal e Alexandra Borges.

Ao contrário de quase todos os políticos que conhecemos, trabalho desde os 16 anos de idade e já fiz de tudo um pouco na vida.

Foi mediador na crise dos combustíveis no diferendo entre motoristas de matérias perigosas e Governo. O seu melhor trunfo é esse, o de conseguir mediar partes e alcançar acordos?

Penso que o meu melhor trunfo é ter sido criado por pais da classe média-baixa, que fizeram muitos sacrifícios para que eu tivesse todas as ferramentas para singrar na vida e soubesse dar valor às coisas. Ao contrário de quase todos os políticos que conhecemos, trabalho desde os 16 anos de idade e já fiz de tudo um pouco na vida. Acima de tudo não desrespeito os trabalhadores ou pessoas que sejam de um estrato social mais baixo, como infelizmente muitos o fazem.

É por ter começado por patamares mais baixos que consigo entender melhor quem trabalha com muito sacrifício e as necessidades a grande maioria dos portugueses, pois nunca tive um partido a pagar-me as contas para que não fosse necessário trabalhar no duro.Isso é algo que pretendo mudar no nosso país, só devia poder ser político quem já tivesse contribuído para o nosso país, não faz sentido termos governantes que não conhecem o próprio povo e que nunca fizeram nada de produtivo.

Penso que tenho alguma apetência para conseguir alcançar acordos, pois consigo aliar o que aprendi na ‘faculdade da vida’, com o que os conhecimentos adquiridos durante todo o meu percurso escolar, em particular no curso de Direito e no estágio da Ordem dos Advogados. Hoje em dia falta muita humildade a quem representa os portugueses, falta aquilo que tinha uma das minhas personagens cinematográficas favoritas, Kiril Lakota, o Papa Russo (no livro era Ucraniano) no filme ‘As sandálias do pescador’, onde ele tenta mediar a crise entre a Rússia e a China, e é a sua vida sofrida aliada aos seus conhecimentos que o ajudam a criar consensos.

Motoristas de matérias perigosas? Um conflito destes nunca fica bem resolvido, porque nunca devia ter existido, ficaram muitas feridas abertas, penso que, quase impossíveis de cicatrizar.

Recuando ao ano passado, como foi desempenhar o papel de mediação naquele conflito?

Foi muito difícil, porque quando fui contactado para ajudar, todos estavam de costas voltadas e foi extremamente complicado conseguir voltar a criar a confiança necessária entre as partes, para que se sentassem novamente à mesa das negociações.

Considera que foi bem resolvido o conflito?

Um conflito destes nunca fica bem resolvido, porque nunca devia ter existido, ficaram muitas feridas abertas, penso que, quase impossíveis de cicatrizar. Para mim o Governo foi o responsável maior, porque colocou-se num dos lados, deixando os motoristas encostados à parede.

Lembra-se do que falei lá atrás sobre o ‘lápis azul’? Imagine que era o Governo do Passos Coelho a fazer as atrocidades aos motoristas que este Governo fez? O PS, o PCP e o BE teriam vindo para a rua gritar ditadura.

Infelizmente todos ficaram muito quietos, possibilitando que António Costa decidisse sempre a favor dos grandes grupos empresariais de camionagem e obrigando motoristas a fazerem serviços que colocavam vidas em perigo, nomeadamente a deles.

O sucesso que o PDR teve no passado, nomeadamente em Eleições Europeias, não se pode desassociar do mediatismo de Marinho e Pinto. O facto de o Bruno não ser uma personalidade tão conhecida é uma desvantagem?

É uma dificuldade mas também uma mais-valia. Uma dificuldade porque, como todos sabemos, os partidos políticos normalmente assentam nas personalidades dos seus líderes. Temos vários exemplos disso, o Chega, o PS quando teve líderes menos carismáticos teve grandes descidas. Tivemos também o caso do Livre, não foi o líder mas uma pessoa com um mediatismo enorme, a Joacine, do qual o partido foi atrás. Por isso é que digo que pode ser uma mais-valia.

Mas também pode ser pernicioso, em algumas situações.

Exatamente. O mediatismo, por vezes, também causa dissabores. E o que nós queremos, realmente, é mudar a política em Portugal. Porque a política em Portugal está podre, está corrupta e é necessário dar uma grande volta a este país.

A classe média não pode ser fustigada com impostos. Não pode ser, uma pessoa não pode ser considerada rica simplesmente porque ganha acima do salário mínimo.

Não sendo o PDR nem de Direita nem de Esquerda, por “querer colocar as soluções para o país à frente de ideologias”, pergunto-lhe quais são as principais bandeiras que o partido não irá largar?

Temos várias bandeiras. A principal é a classe média. Queremos voltar a dar valor à classe média. A classe média, onde se englobam a classe trabalhadora, os empresários de micro e pequenas empresas, tem sido fustigada com os impostos que os sucessivos governos colocam em cima dessas pessoas. Por vezes, vimos pessoas que têm rendimentos atribuídos pelo Estado a ter uma vida melhor do que aquelas que trabalham todos os dias arduamente, com sacrifícios imensos, e depois não conseguem chegar ao fim do mês e pagar as suas contas. Isso é inadmissível. É evidente que não podemos retirar rendimentos a quem não tem possibilidade de os ter, mas temos que salvaguardar os direitos daqueles que trabalham.

A classe média não pode ser fustigada com impostos. Não pode ser, uma pessoa não pode ser considerada rica simplesmente porque ganha acima do salário mínimo, algo que, na minha humilde opinião, é um salário de quase escravidão.

O PDR tem defendido um aumento do salário mínimo por não considerar o atual digno. Já tem ideia de qual seria um valor digno?

Temos um pacote de medidas, e algumas delas já foram utilizadas pelo Governo, nomeadamente a questão da Telescola. Temos aqui uma situação que pode ser a diferença da UE salvar-se a si própria ou não que é a criação de um salário mínimo europeu. Não tem qualquer lógica um trabalhador que está numa UE em que pode transitar livremente, trabalhar em qualquer país, não ter a garantia de um salário mínimo europeu. Neste caso, um salário mínimo europeu ia aumentar os salários em Portugal.

Não defendemos um caminho de tirar a quem tem. Quem tem, mereceu e deve continuar a ter. Temos é que arranjar soluções para que quem não tem ou tem pouco venha a ter mais

E baixar o de alguns, não?

Não, pelo contrário. Não defendemos um caminho de tirar a quem tem. Quem tem, mereceu e deve continuar a ter. Temos é que arranjar soluções para que quem não tem ou tem pouco venha a ter mais. Esse é que é o princípio. se não caíamos no ridículo de certas ideologias: retirar a quem tem para dar a quem não tem. Não. Temos é que arranjar soluções para dar mais a quem não tem ou tem pouco. Mas não vamos retirar a quem o tem. Vamos é redistribuir de forma melhor.

A título de exemplo, o IVA em Portugal é assustadoramente alto e nos outros países é mais baixo e tem para as finanças públicas um melhor aproveitamento. Porquê? Porque as pessoas preferem pagar menos e pagar do que correr o risco de poderem ser apanhados pelas malhas da justiça. Em Portugal, vale a pena cometer o crime de não pagar impostos. O valor dos impostos é tão alto…

É um crime que compensa…

É um crime que compensa. e é estas contas que os ditos Ronaldos das Finanças e outros que não fazem, porque nunca trabalharam, não conhecem o povo, não conhecem as pessoas, aplicam medidas de excel e não vêem depois a parte humana. Se reduzirmos certo tipo de impostos, as pessoas vão ser mais adeptas do pagamento dos mesmos e com isso iremos conseguir com que entre mais dinheiro nas finanças públicas. Custa-me imenso que, por exemplo, os nossos pequenos empresários não estejam a ser ajudados. Um microempesário não tem qualquer apoio neste momento. É inaceitável.

Ainda relativamente ao salário mínimo europeu, o valor que propunha são os tais 900 euros ou ainda não tem um valor em mente?

O valor teria sempre de ser discutido em sede da União Europeia. Não poderíamos aceitar o valor abaixo do país mais baixo, sendo que há países que não têm uma obrigação de um salário mínimo mas sim apenas uma indicação. Aquilo que convém esclarecer é que isto tem depois implicações ao nível dos negócios que são feitos com o nosso país. Algumas empresas mantém a sua escolha de permanecer no nosso país devido aos nossos baixos salários. Aí teríamos que ver que tipo de apoios é que conseguiríamos dar a essas empresas para continuarem aqui. Não podemos lançar medidas para o ar sem reestruturar toda uma questão económica tão importante que tem a ver com a manutenção dos nossos postos de trabalho e tentar o desemprego zero.

A TAP é daqueles erros do governo. Foi um erro ter vendido e pode ser agora outro erro nacionalizar sem responsabilizar os privados.

Falou num pacote de medidas para enfrentar a atual situação. Numa altura em que se antevê uma crise económica depois desta crise sanitária, que contributos é que o PDR vai dar ou pode dar neste contexto?

Para além da questão da Telescola, também exigimos que o lay-off tivesse mais apoio do Estado; um escrutínio maior às empresas que têm lucros e que não precisavam de aplicar esse lay-off; o aumento de ajudas para trabalhadores independentes, suspensão do IRS e IRC, isenções do IMI e, principalmente, do IMT para fazer com que a venda de casas não caísse.

E a venda de casas, que parece algo redutor, é talvez um dos principais setores da economia. A venda de casas vai influir também na construção civil, um dos pilares de uma economia nacional. Sem uma, a outra não se desenvolve. A isenção do IMT não iria causar problemas nas contas públicas. Se não aplicarmos este tipo de apoios, vamos ter uma retração da economia, as casas não vão ser vendidas, se não vão ser vendidas, não vai haver tanto imposto a ser aplicado… Isto é uma pescadinha de rabo na boca. E portanto compete ao Estado fazer esse travão. Estamos também a exigir a suspensão do IUC nos estabelecimentos de stands, algo que é da maior justiça. Imagine o que é que é as 25 mil famílias que são proprietárias de pequenos stands estarem sujeitas ao pagamento de IUC quando estão proibidas de ter o estabelecimento aberto. Colocámos também o cheque escola e a redução do horário de trabalho.

Para futuro, a construção do aeroporto do Montijo é algo escabroso. A venda do porto de Sines aos chineses… quando devíamos estar a pensar em reinventar a nossa economia e começar a produzir o que importamos.

Ou seja, já devíamos ter alterado um pouco a nossa estratégia.

Já devíamos ter alterado substancialmente a nossa estratégia económica e modificar a nossa forma de estar na economia. Não vender tudo o que temos, antes pelo contrário, até sou a favor de algumas nacionalizações para que o Estado volte a ser determinante na nossa economia.

O Governo não exclui, por exemplo, nacionalizar a TAP.

A TAP é daqueles erros do governo. Foi um erro ter vendido e pode ser agora outro erro nacionalizar sem responsabilizar os privados. Os privados na TAP, como sabemos, não pagaram nada para entrar no capital social e agora podem sair também sem pagar nada. Não pode acontecer. É tal como as PPP nas autoestradas e afins. Tem que haver uma maior luta contra estes lóbis políticos, contra a corrupção no nosso país. Só assim é que conseguimos distribuir o dinheiro pelas pessoas.

Celebrações do 25 de Abril? Se eu fosse Governo, não faria este espectáculo. Neste momento, é um espectáculo para 130 pessoas. E especialmente, tenho pena de dizer isto, é lamentável que o Presidente da República vá fazer também o espectáculo.

O conjunto de propostas de que falou remeteu-as para o Governo?

Não remetemos especificamente para qualquer ministério. O Governo sabe dessas medidas e teríamos todo o gosto em sentar-nos e explicá-las em profundidade, algo que sabemos este Governo não faz. E, a contrário de outro líder partidário [Rui Rio], não acho que sermos objetivos e crtiticarmos o que tem de ser criticado seja antipatriótico. Temos de criticar e ser objetivos para melhorar o que está mal. E neste momento, há muita coisa que está mal. Por exemplo, não faz sentido o Governo dizer uma coisa e fazer outra.

Nomeadamente?

Estou a falar concretamente das comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República.

Não concorda com o modelo de comemoração na AR?

Não concordo por uma razão que ainda não tem sido veiculada. Concordaria com a comemoração se o Governo tivesse tido outra atuação neste período. O Governo teve uma atuação fraca e exige o confinamento às pessoas. Não pode agora vir fazer algo diferente daquilo que adotou. Se o Governo tivesse adotado certas medidas que o PDR sugeriu logo de início, não teria mal fazer as comemorações do 25 de Abril na AR. Não é por causa disso que a democracia ganha ou perde. Não vamos entrar em litígios sobre se uns são fascistas e outros anti-fascistas. Não tem nada a ver com isso. É uma questão de seriedade e de respeito pelo povo português.

Se ao povo é exigido que esteja em confinamento, eu como líder, como general, como António Costa gosta de dizer, tenho que dar o exemplo. E dar o exemplo seria respeitar o povo que está em confinamento há mais de 45 dias.

Se eu fosse Governo, não faria este espectáculo. Neste momento, é um espectáculo para 130 pessoas. E especialmente, tenho pena de dizer isto, é lamentável que o Presidente da República vá fazer também o espectáculo. Não há necessidade. O 25 de Abril deve ser celebrado, ainda bem que é, mas há momentos para respeitarmos o povo e este é um deles. Em França não há comemorações da Segunda Guerra Mundial e ninguém achou que era desrespeitar o simbolismo da data.

O respeito pelo povo português é maior do que o respeito que devemos ao 25 de Abril. O 25 de Abril é uma comemoração
Mas o Parlamento tem estado sempre em funcionamento. Aquilo que se irá passar no 25 de Abril, sábado, será mais um momento de funcionamento da AR, assinalando a data…

O que estamos aqui a referir é a atuação de um Governo que exige aos seus cidadãos e que depois faz uma coisa completamente diferente.

Então o Parlamento deveria ter fechado portas?

O Parlamento não poderia fechar, se não as instituições caíam. Uma coisa é a obrigação que nós temos de manter as instituições abertas – e se o Governo tivesse sido mais rápido a resolver algumas situações, havia mais instituições abertas -, outra é, havendo uma obrigação de confinamento, aplicar o ‘faz o que eu digo, não faças o que eu faço’. Há que haver respeito pelas pessoas que não puderam e não podem enterrar os seus entes queridos, que não podem ir aos lares, e etc. É uma questão de respeito.

E o respeito pelo povo português é maior do que o respeito que devemos ao 25 de Abril. O 25 de Abril é uma comemoração. O facto de o Parlamento estar aberto não é uma comemoração, é uma obrigação. Há momentos em que devemos ter essa humildade, olhar para nós e ver que há algo superior até às nossas próprias crenças políticas. Infelizmente, Ferro Rodrigues, com a sua maneira de ser a que já nos habituou, foi intransigente e continuou com as comemorações.

Mas nessa comemoração vão apenas ser proferidos discursos. Irão ser cumpridas as regras de segurança…

Não está em causa a segurança e a propagação do contágio.

É o gesto em si, é isso?

É o gesto em si, é o respeitar as pessoas. O Governo acabou de decretar o terceiro Estado de Emergência e obrigou as pessoas a ficarem confinadas quando não o devia fazer de uma forma tão autoritária. Porque é que as pessoas não podem ir, a 2 ou 4 metros [de distância] dar um passeio à praia?

Mas podem.

Não podem, porque depois são paradas no seu carro… Efetivamente tínhamos de parar, tínhamos de ter aquele confinamento, mas a forma como foi feito, foi feito atabalhoadamente.

A 3 de fevereiro, o PDR defendeu que se cancelassem os voos e que se encerrassem as fronteiras. O Governo demorou mais de um mês a tomar decisões

Depreendo que se estivesse no Parlamento não teria votado a favor do Estado de Emergência. É isso?

Teríamos votado a favor do Estado de Emergência. Mas com medidas diferentes. Salvo erro, no dia 15 de janeiro, a doutora Graça Freitas considerou excessiva a possibilidade de o vírus se propagar em Portugal. Em janeiro também, a ministra da Agricultura afirmou que o vírus podia ter consequências benéficas para o nosso país. Depois, no final de fevereiro, a ministra Marta Temido desvalorizou os casos suspeitos que não foram encaminhados para exames, mesmo apresentando sintomas. Ora, a primeira vez que ouvimos falar do vírus em Portugal foi quando no dia 3 de fevereiro aterrou um avião nos Açores, vindo da província de Whuan, e que passou por vários países nos quais os passageiros foram proibidos de desembarcar. Deveriam ter-se fechado logo as fronteiras e cancelado os voos de e para Portugal. Se tivessem sido tomadas estas atitudes, o confinamento a que hoje estamos sujeitos seria concerteza absoluta muito menor e menos drástico. O Governo foi reativo e não proativo.

Quando é que o país devia ter tomado essas medidas?

A 3 de fevereiro, o PDR defendeu que se cancelassem os voos e que se encerrassem as fronteiras. O Governo demorou mais de um mês a tomar decisões. Porque não sabia o que fazer perante uma novidade que era governar numa situação completamente diferente àquela a que estamos habituados.

Os governos têm de abrir os cordões à bolsa. É inadmissível que possa vir a haver austeridade novamente em Portugal. Não podem pedir isso novamente aos portugueses
Apesar disso, Portugal está a ser considerado até um exemplo na forma como está a lidar com a pandemia, tendo até recebido elogios de outros países. Portugal, quando comparado com os outros países, foi dos primeiros a tomar medidas, tendo em conta o primeiro caso confirmado de Covid-19 e a primeira morte. Acha que está a correr assim tão mal?

Eu não acho que está a correr assim tão mal, acho que devia estar a correr melhor. Por exemplo, na Coreia do Sul está a correr muito melhor do que em Portugal porque teve outro tipo de posições. E o facto de o Governo não ter antecipado a compra de máscaras, não ter antecipado a compra de ventiladores, não ter antecipado o cancelamento dos voos, o encerramento de fronteiras, etc., obrigou a que estejamos no terceiro decreto de lei do Estado de Emergência.

Como é que o regresso à normalidade deve ser feito?

Em primeiro lugar, os 500 mil milhões que a UE aprovou são uma vergonha. Isso sim é repugnante. A UE tem que aumentar o valor e dar um sinal de que quer ser uma união. Os governos têm de abrir os cordões à bolsa. É inadmissível que possa vir a haver austeridade novamente em Portugal. Não podem pedir isso novamente aos portugueses.

Mas haverá alguma receita milagrosa para fugir a isso?

A receita milagrosa é aquilo que já devia estar a ser aplicado há décadas em Portugal. Temos um setor de pescas que não é devidamente utilizado. Aliás, deitam peixe fora ou temos multas por pescar demais. E podia falar de n situações em que somos obrigados a estar privados do melhor que sabemos fazer. É altura de alguém na UE conseguir ver que é necessário sermos nós a produzir e não importar tudo, especialmente da China.

Continuamos mal. Mário Centeno não foi nenhum mestre ou génio da economia pelo que fez. Pelo contrário
É essa a grande lição desta pandemia?

A grande lição é que não podemos deixar na mão de um país ou de vários a economia do mundo. Temos realmente que mudar e temos que fazer mais pelas pessoas. Não podemos governar para orçamentos. Por vezes, não devemos cumprir orçamentos propostos por outros países. O nosso povo é mais importante do que o cumprimento dos orçamentos e não podemos governar para nos mantermos no Governo mas sim para os portugueses.

Quer dizer que é totalmente contra à política que Mário Centeno tem seguido até aqui?

Não sou totalmente contra. Penso que não foi a melhor política para Portugal. Fui totalmente contra as políticas de Passos Coelho. Independentemente do mal que foi feito, quando entregou as contas do país a António Costa e Mário Centeno estavam numa situação para que neste momento estivéssemos muito melhor. Continuamos mal. Mário Centeno não foi nenhum mestre ou génio da economia pelo que fez. Pelo contrário. O que temos é que criar estruturas capazes de assegurar a independência de Portugal aos factores externos.

Por exemplo?

Temos que aumentar a capacidade de produção de energia verde para conseguirmos a redução da dependência dos combustíveis fósseis. e temos em Portugal uma situação única. Outro exemplo: a rede nacional de regadio. Uma das coisas que o PDR voltou a debater é a questão dos politécnicos que estão subaproveitados. Temos que dar mais hipóteses aos portugueses.

O Dr. Marinho e Pinto é uma mais-valia para o nosso país. Infelizmente, muitas vezes a sua personalidade pura trouxe-lhe dissabores…
Mudando aqui a agulha da conversa, pergunto-lhe se o Marinho e Pinto lhe tem dado conselhos sobre como liderar o partido?

Tenho falado muitas vezes com o dr. Marinho e Pinto. Ele tenta transmitir os seus conhecimentos sem tentar …

Sobrepor-se?

Não é sobrepor-se. Ele não quer criar mal-estar. e como o próprio já disse um dia, quer que eu caminhe neste momento o meu próprio caminho para tomar as minhas decisões livre de qualquer situação. Tenho falado com ele e peço-lhe conselhos, como é evidente. Mau seria se não o fizesse. Ele estará sempre apto para o partido. O dr. Marinho e Pinto é uma mais-valia para o nosso país. Infelizmente, muitas vezes a sua personalidade pura trouxe-lhe dissabores…

Devido ao temperamento …

E o temperamento também. Ele vem de outra geração, às vezes também era rude com os órgãos de comunicação social, se calhar por ter sido também jornalista. Mas acima de tudo, por não ter lóbis, por ser sério, justo e robusto nas suas ideias, teve alguns dissabores.

Não foi compreendido?

Muitas vezes não foi compreendido. Por vezes foi mal interpretado. E teve durante cinco anos às costas um partido que lhe retirou muito tempo e vida. E às vezes é difícil tirarmos tempo para estudarmos alguns dossiêrs e conseguirmos falar exatamente aquilo que queremos. Sendo um partido mais pequeno que os outros, tentamos resumir nos poucos minutos que nos concedem todos as nossas ideias, o que é sempre complicado.

E a comunicação acaba por não ser eficaz?

Sim. Acaba por não ser tão eficaz. Porque os outros têm tempo para debater uma ideia e explorá-la ao máximo, enquanto nós temos de falar sobre 20 ideias e podemos depois falhar, como qualquer ser humano. e é aí que tenho aprendido com ele [Marinho e Pinto], com alguns erros que foram cometidos e tentar.

Estive 20 anos à frente de um sindicato e nunca tive esses complexos quer ideológicos quer sindicais, porque por vezes o patrão também tem razão.

Não sendo o PDR nem de Esquerda nem de Direita, com que partidos do nosso Parlamento teria mais dificuldades no diálogo?

Não vejo dificuldades com nenhum partido. Enquanto estiver à frente do PDR, há uma coisa que se irá sobrepor sempre a ideologias e a interesses partidários que é o bem-estar e o interesse dos portugueses. Não vejo qualquer dificuldade em fazer compromissos com a esquerda radical ou a direita se naquele assunto os interesses dos portugueses forem os mais bem servidos. Acho difícil explicar a quem quer que seja como é que um partido pode sobrepor a sua ideologia partidária a questões de relevância para os portugueses.

As ideologias partidárias hoje são poucas, o mundo mudou, já não há uma questão de Direita e Esquerda tão acentuada como havia, já não há a questão do proletariado e do patronato, até porque as pessoas têm mais oportunidades de serem patrões do que antigamente. Temos de nos centrar na qualidade da vida dos cidadãos e não tanto na ideologia. Uma das razões por que aceitei o repto do dr. Marinho e Pinto para me candidatar a presidente do PDR é porque é um partido de centro. Ou seja, lida melhor estas questões das ideologias do que os restantes. Consegue estar mais dentro de uma social-democracia em que o bem-estar é a coisa mais importante.

Situa-se no centro, mas não é centro conservador?

Somos centro progressista até, queremos unificar as políticas e o bem-estar social e conseguir ser uma espécie de mediador de todos os partidos. Daí dizer que não encontro nenhuma dificuldade em estabelecer compromissos da Esquerda à Direita. É o que toda a gente devia fazer.

Sem complexos ideológicos.

Como é evidente. Como é que é possível ter complexos ideológicos e deixar uma criança com fome? Como é que é possível ter complexos ideológicos e deixar trabalhadores no desemprego?É inadmissível. Estive 20 anos à frente de um sindicato e nunca tive esses complexos quer ideológicos quer sindicais, porque por vezes o patrão também tem razão. Devemos deixar essas questões doutrinárias de parte e aproveitar as melhores soluções, é para isso que somos eleitos.

Ver entrevista no site noticiasaominuto