“… O ESTADO A QUE ISTO CHEGOU”

A Sua Excelência

O Presidente da República Portuguesa,

Excelentíssimo Senhor

Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa,

Excelência,

Tomo a liberdade de endereçar esta missiva a Vossa Excelência, na qualidade de Presidente do PDR – Partido Democrático Republicano, por ser o representante máximo de todos os portugueses que, como saberá, vivem momentos difíceis a todos os níveis.

O assunto que me leva a escrever-lhe prende-se com as comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República.

Por essa razão, decidi utilizar em epígrafe  parte de uma frase do discurso que Salgueiro Maia fez na madrugada de 25 de Abril de 1974, na parada da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, aos cerca de 240 soldados que, após ouvirem o seu discurso, seguiram para Lisboa e derrubaram a ditadura.

Tal como Salgueiro Maia foi um timoneiro para o povo português naquela época, um Presidente da República deverá ser sempre uma figura de união e de liderança, nunca o oposto.

Tal como Salgueiro Maia, um presidente deve estar acima de quaisquer interesses ou ideologias e deve lutar pelos seus ideias sem esperar nada em troca, ao contrário de tantos políticos que hoje em dia vemos perfilar pela nossa sociedade.

Por essa razão Salgueiro Maia foi um exemplo para todos os portugueses, tal como Vossa Excelência certamente se irá recordar, ele recusou ser membro do Conselho da Revolução, adido militar numa embaixada à sua escolha, governador civil do Distrito de Santarém e pertencer à casa Militar da Presidência da República.

Não posso pensar que comemorar a festa do 25 de Abril na Assembleia da República é um motivo para alguns políticos continuarem a mostrar que não fazem parte do povo e que as suas decisões estão acima de qualquer escrutínio.

Não veja, Sua Excelência,  nesta minha missiva, um motivo de instabilidade, contestação ou oposição a qualquer dos órgãos de soberania, muito menos uma crítica  pessoal a qualquer dos intervenientes, apoiantes ou opositores, como compreenderá não pretende o PDR, na minha pessoa, discutir a pertinência da data. É, antes, uma sensibilização para o momento que todos vivemos.

Recordo que o mero anúncio das comemorações do 25 de Abril foi tudo menos um factor de união dos portugueses e o que deveria ser uma festa de celebração, está a ser um motivo de discórdia e um revivalismo de ódios antigos.

Independentemente das posições que foram tomadas por algumas figuras públicas associadas quer à ideologia da esquerda quer à ideologia da direita portuguesa, na minha humilde opinião, a decisão de comemorar o 25 de Abril não se prende, este ano, com uma tomada de posição política ou até uma questão de demonstração de que não há qualquer perigo para a saúde pública fazer essa comemoração.

Este ano, o 25 de Abril deveria ser um acto de decência e de respeito para com os portugueses que têm sido privados, por Vossa Excelência e pelo nosso Governo, de poderem estar normalmente com a família mais próxima, de enterrar com dignidade os seus entes queridos ou amigos, de visitarem pais e avós nos lares ou nos hospitais, de passar datas festivas importantes em família.

Pior, se é que isso é possível, o que dizer a todos os profissionais de saúde, bombeiros, forças de segurança e outros profissionais, ou voluntários, que, por terem decidido sacrificar-se a salvar ou melhorar a vida dos portugueses, mesmo arriscando a sua, têm estado, há mais de 45 dias, afastados dos seus filhos, maridos e mulheres?

Como Vossa Excelência já deve ter constatado pelas minhas palavras, reprovo veementemente que este ano se realizem as comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República, porque considero uma afronta aos portugueses comemorar-se qualquer que seja a data neste momento de luto nacional e em que muitas famílias se estão a ver em grandes dificuldades económicas.

Relembro que, em sentido diferente do que foi decidido em conferência de líderes parlamentares e pelo Presidente da Assembleia da República, muitos governos de países europeus decidiram cancelar os seus eventos públicos.

Os cancelamentos por essa Europa fora talvez tenham sido decididos porque nesses países a democracia está implementada há muito mais tempo e os seus políticos não precisam de se mostrar ao povo em festas ou comemorações, pois já nos habituaram a que um governante não desperdice dinheiros públicos.

Todavia, recordo que Vossa Excelência, inclusivamente, já decidiu em sentido contrário, ao que se vai realizar no próximo dia 25, ao anular as comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas que estavam previstas para o mês de Junho no Funchal e junto das comunidades portuguesas na África do Sul.

Como é evidente, nem sequer vou colocar em questão se porventura considera as comemorações do 25 de Abril mais importantes do que as comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Mas, permita-me questionar o seguinte: será que a democracia portuguesa fica em perigo se, este ano, deixarmos de comemorar o 25 de Abril na Assembleia da República, por um acaso perder-se-á a identidade nacional ou a soberania,  ou os saudosistas de um tempo passado irão vingar subitamente?

Estou convicto que não.

Não querendo ser demagogo ou populista, questiono quantos ventiladores, ou outros equipamentos, poderiam ser adquiridos com o dinheiro que se vai gastar nesta comemoração? Quantos portugueses seriam salvos com esse dinheiro? Quantos podiam ser resgatados à indulgência ou pobreza iminente?

Na verdade, as comemorações do 25 de Abril não teriam tanta celeuma caso as decisões de confinamento social tivessem sido decididas mais celeremente e com uma abertura gradual mais cedo do que aquela que vamos vivenciar, mas isso é, desde o início, a posição do partido que represento, mas que não foi observada por Vossa Excelência ou pelo nosso Governo.

Desta forma, considero que não podemos ter um discurso de “faz o que eu digo, mas não faças o que eu faço”, porque os portugueses merecem mais, muito mais do que isso, todos eles, simpatizantes ou não da efeméride.

Assim, apelo a Vossa Excelência que não traga mais desunião aos portugueses e solicite o cancelamento das comemorações do 25 de Abril ou, na impossibilidade de o fazer, comunique simplesmente que por uma questão de exemplo e solidariedade para com uma nação em quarentena imposta, não irá comparecer às mesmas.

Tratando-se de uma Carta Aberta, reservo-me o direito de divulgar apresente pelos  meios que considerar oportuno.

Na expectativa de uma resposta positiva, apresento-lhe os meus melhores cumprimentos e votos de boa saúde,

 

Bruno Fialho
Presidente
PDR – Partido Democrático Republicano