ELES PODEM TUDO E NÓS NÃO PODEMOS NADA!

 

A parecença com a famosa frase da letra da música “Os Vampiros”, de Zeca Afonso, “Eles comem tudo e não deixam nada”, que toda a classe política e, em particular, a esquerda bem conhece, pode ser usada para descrever a incoerência da autorização do Governo para a realização de alguns eventos culturais ou políticos durante a situação de Pandemia do Coronavírus Covid-19 e a proibição de eventos religiosos no mesmo período.

Sei que este texto poderá importunar muito boa gente, pela sempre explosiva combinação de elementos que se devem evitar a todo custo, como a política e a religião. Mas fui incapaz de o fazer, pois sinto-me demasiadamente português para me conter perante o perigo em que estão a colocar os meus concidadãos.

Penso que é evidente para todos, que os Portugueses são um povo religioso, predominantemente católico, pelo que eu não fujo à regra. Sou religioso e muito devoto da Nossa Senhora de Fátima.

O momento, que vivemos em Portugal, é, para todos os que cá habitam, muito particular das suas vidas. Devido a questões de saúde pública e do superior interesse nacional e do bem estar de todos, a população portuguesa foi obrigada ao confinamento obrigatório durante quase dois meses. Durante esse período só puderam sair de casa para trabalhar, comprar produtos alimentares, ir à farmácia, ao hospital, passear o animal de estimação ou praticar desporto de forma isolada.

A economia travou a fundo e com a necessidade de a colocar novamente em funcionamento, começou-se a nova etapa, o desconfinamento. Aqui, aqueles que cá residem continuam a estar proibidos de fazer algumas coisas, como por exemplo, disfrutar do prazer de uma simples ida à praia, de participar em eventos desportivos, culturais ou de qualquer outro tipo em que existam grandes grupos de pessoas no mesmo espaço.

Não vou ser hipócrita e dizer que acho mal que estas medidas tenham sido impostas, até porque dou nota positiva a algumas das medidas restritivas que foram adoptadas, que só pecaram por terem sido tardias na sua decisão. Mas não, não é isso que vou dizer. O que eu quero e vou dizer é que a obrigação de confinamento é para todos e não pode existir UNS QUE PODEM TUDO E OUTROS QUE NÃO PODEM NADA.

E a provar isso mesmo é o facto de que a decisão para autorizar a realização do maior comício político do PCP, também denominado de “Festa do Avante!” já deve estar tomada. Isto porque, o Governo, através da ratificação do comunicado do Conselho de Ministros de 7 de Maio de 2020, depois de o Sr. Primeiro-ministro, Dr. António Costa ter anunciado que havia a possibilidade de a “Festa do Avante!” se poder vir a realizar, desde que tomadas as devidas medidas de segurança sanitária, vem dizer que a proibição da realização de festivais é só para os de “natureza análoga”. Há que dizer, que conveniente Sr. Primeiro-ministro.

No entanto, o Partido Comunista Português emitiu um comunicado onde já veio dizer que a “Festa do Avante!” não é um mero festival. Diz que a “Festa do Avante!” é uma “grande realização político-cultural” surgida “muitos anos antes da existência” de festivais de música. Em 44 anos de “Festa do Avante!”, só em 1987 é que não se realizou este festival.

Mas, utilizando a chamada de atenção que o Sr. Primeiro Ministro, Dr. António Costa, fez, ao declarar que a “Festa do Avante!” se pode vir a realizar, desde que tomadas as devidas medidas de segurança sanitária, sou obrigado também a chamar a vossa atenção para o KIT da “Festa do Avante!”, que o PCP, muito responsavelmente, está a oferecer a quem comprar o bilhete. Quanto ao KIT, fiquei muito contente, pela negativa, ao ter conhecimento do conteúdo do mesmo quando visitei o site oficial do Partido Comunista Português para a “Festa do Avante.

Digo, muito responsavelmente no parágrafo anterior, porque o KIT é composto por tudo, menos pelo material de proteção que devia ser exigido pela DGS, como as máscaras, luvas, álcool gel e um regulamento para o afastamento social e gel álcool para desinfeção das mãos. Ou seja, como Gerónimo Martins já afirmou, o PCP está a pensar em tudo com muita imaginação.

Isto é a forma como alguma classe política aborda o problema da pandemia e coloca o seu idealismo extremista acima de tudo e de todos e a forma como age quando tem algum poder, que lhe está a ser concedido por um Primeiro-ministro que está desesperado a tentar manter-se como Governo.

Da parte dos fieis, onde me incluo, a Peregrinação ao Santuário de Fátima, que se realiza desde 1977, ou seja, menos um ano do que a “Festa do Avante!”, vai-se realizar sem um dos elementos mais importantes, os Peregrinos. Isto porque, a Igreja, mostrou-se muito mais responsável que os próprios políticos e ordenou que a Peregrinação ao Santuário de Fátima este ano fosse realizada em pensamento e no coração. Evitando assim que os milhões de fiéis que se deslocam no 13 de Maio, de todos os quadrantes do mundo, estivessem presentes no local.

Não posso deixar de aplaudir esta decisão da Igreja pela dimensão de responsabilidade que esta medida tem. Pois a igreja colocou à frente, dos interesses religiosos, turísticos e económicos, os interesses da saúde de todos os seus fieis e por apenso de Portugal e do Mundo.

Primeira questão que quero colocar é a seguinte: sendo importante sob o ponto de vista político para o PCP, será, para os português, a “Festa do Avante!” um evento mais importante do que a peregrinação ao Santuário de Fátima?

A segunda questão que coloco é muito simples: Porque é que o Partido Comunista Português, bem como toda a esquerda política, em particular a que está a governar Portugal com mais efetividade, ou seja, o Partido Socialista, não colocam os superiores interesses dos Portugueses em primeiro lugar, principalmente depois de lhes ter exigido enormes sacrifícios e solicitado outros que ordeiramente cumpriram e não impedem, este ano, a realização da “Festa do Avante!” ?

Só assim se respeitariam os portugueses, os empresários e os organizadores de Festivais de “natureza análoga”, a mais recente categoria de festivais que o PS criou.

Pelo menos para mim é assim que vejo as coisas e acredito que os Portugueses também sentem que, ELES PODEM TUDO E NÓS NÃO PODEMOS NADA!

 

António Casal
Membro da Comissão Política do PDR