Nas últimas décadas, viroses antes desconhecidas, como o HIV, e o ressurgimento de outras que haviam sido controladas, como o dengue, têm sido observadas. O surgimento de novas amostras virais por modificações genéticas, mutações, a transposição da barreira de espécie por um vírus e a disseminação viral a partir de um nicho ecológico, são uma preocupação constante. 

A epidemia da gripe espanhola, que deixou 50 milhões de mortos entre 1918 e 1920, foi um assassino mais eficaz que a Primeira Guerra Mundial, com seus dez milhões de soldados mortos. 

Agora, em pleno século XXI, sucedem-se os avisos face à nova forma de guerra mundial, graças à globalização e mobilidade descontrolada das sociedades, os vírus epidémicos. 

Será mesmo um inimigo invisível ou lideres e organizações, suportados por estruturas gigantescas absorvedoras de regalias e avultados rendimentos, têm facilitado e até contribuído para a sua invisibilidade? 

Gripe Espanhola?

As origens da epidemia provavelmente não têm nada a ver com a Espanha. Mas então, por que persiste esta denominação?

Sem dúvida se deve ao segredo militar em torno da saúde dos soldados durante a Primeira Guerra Mundial, e por isso os jornais dos países beligerantes não podiam divulgar que havia uma epidemia a dizimar as suas tropas. Por outro lado, a imprensa podia escrever livre de censura sobre uma gripe que afetava a Espanha.  Um país neutro onde não havia censura.

A pandemia de hoje, será mesmo oriunda no mercado de Wuhan, na China? Terão os chineses na generalidade de pagar tal infâmia?  

Afinal qual era a Origem?

Não se pode estabelecer com total assertividade a origem exacta da epidemia. Sabe-se que os primeiros casos detectados foram em soldados americanos no Kansas, no centro dos Estados Unidos, em março de 1918. Desde lá, a doença terá migrado para a Europa, propagando-se por via das tropas.

A pandemia expandiu-se globalmente em três fases. A primeira, na primavera boreal de 1918, não tendo sido tão mortífera como as duas que se seguiram. Estas muito mais virulentas e agressivas, provavelmente devido às mutações que, entretanto, o vírus sofrera.

Sendo agora a origem da actual pandemia efémera, podemos estar frente a uma repetição da História, desta vez motivada pelo reverso da mesma. A Globalização des-controlada por conveniências individuais.

O que interessa saber, se quem de direito já sabia, se a origem foi no mercado de Wuhan, na china? O que interessa ignobilmente acusar todo um povo secular (A culpa é dos Chineses!) que muito de bom também deu e tem dado à civilização?

Vírus

O vírus da gripe espanhola que deu origem a essa pandemia foi do tipo A(H1N1), assim como o agente responsável da macro epidemia de gripe de 2009, que, segundo o balanço oficial da OMS, provocou 18.500 mortos. Estes valores, vieram a subir por estimativas posteriores, para os 200.000 mortos.

Vide:  

1957: gripe asiática. O vírus espalha-se por toda a China e por toda a Ásia e depois em todo o mundo, causando a pandemia mais importante desde a gripe espanhola de 1918, com um total estimado de 1,1 milhão de mortos (segundo a CDC).

1968: gripe de Hong Kong. Uma nova estripe do vírus da gripe tipo A. Infecta meio milhão de pessoas, ou seja, 15% da população, antes de se espalhar para a Ásia e depois para os Estados Unidos e Europa. O saldo dessa pandemia é estimado em um milhão de mortes (número citado pela agência dos Estados Unidos para vigilância e prevenção de doenças, CDC).

2003: SARS – Síndrome Respiratória Aguda Grave. surge no final de 2002. Esse “coronavírus” (vírus em forma de coroa) é terrivelmente contagioso e causa pneumonias agudas, às vezes fatais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou em 12 de março um alerta de saúde internacional. A epidemia deixou 774 mortos, de um total de 8.096 pessoas afetadas em cerca de trinta países.

Sobre o novo coronavírus (COVID-19), que apareceu em dezembro 2019 na cidade de Wuhan, resta-nos aguardar, impotentes, pelo balanço final.

Jovens

Enquanto a gripe espanhola afectava principalmente os jovens, sendo as suas vítimas preferidas na faixa etária entre 20 e 40 anos, atualmente as epidemias de gripe sazonal são especialmente perigosas para os idosos (e para as crianças), já por natureza debilitados e maioritariamente “abandonados” pelas politicas recorrentes. 

Virulência

Este vírus era perigoso sobretudo para os pulmões, já que provocava uma congestão muito grave das vias respiratórias que fazia com que os infectados asfixiassem.

A guerra na altura, proporcionava o agravamento da epidemia. Os movimentos das tropas ajudaram à propagação do vírus beneficiando das feridas e privações que afetavam as defesas da população.

Hoje, Os facilitadores de tal evolução, predem-se com a pressão demográfica (com a expansão da área agrícola), com os padrões de comportamento social, o intenso tráfego aéreo, o facilitismo na mobilidade populacional no geral (transportando infectados e agentes infectantes), modificações ecológicas de grande porte e a reconhecida transformação dos sistemas de saúde no mundo, com redução dos recursos e da infra-estrutura para ações de controlo de doenças e outros perigos como o terrorismo. Enfim, na Globalização des-controlada.

Impacto mundial

Não há um balanço preciso da epidemia. Na altura, estimou-se cerca de 21 milhões de mortos. Mas mais recentemente, estudos remetem esse valore para 50 milhões de mortos, após o vírus ter infectado um terço da população mundial.

Em 2002, os pesquisadores Niall Johnson e Juergen Mueller estimaram que o “verdadeiro balanço” da epidemia rondava os 100 milhões de vítimas. Poucas regiões do mundo escaparam à pandemia. A Austrália foi um dos países menos afetados graças a uma política restrita de quarentena.

É então, em 1922, criado o Comité de Saúde e da Organização de Higiene, que viria originar a Organização Mundial de Saúde (OMS), com o propósito de responder em parte à vontade de combater melhor este tipo de pragas.

Passado décadas, mais uma vez, constata-se que os resultados apresentados pela OMS estão aquém de quem tem obrigação de conhecer a historia e minimizar um futuro difícil que se avizinha por estes alertas virais. E quando for a serio? Quando o alvo for genérico e o índice de mortalidade atingir proporções catastróficas?

Provado mais uma vez que os interesses financeiros de uma minoria, prevalecem à generalidade das pessoas. O desinteresse sucessivo dos nossos governantes pelas áreas de Vigilância Epidemiológica, Pesquisa aplicada à Saúde Pública, ênfase em ações de prevenção de doenças e controle de vetores, além de melhor infra-estrutura do sector da saúde publica e ensino/investigação, são prova disto. 

É agora tempo de reinvenção dos sistemas políticos e sociais, do freio da globalização des-controlada para que se possa minimizar o impacto destas doenças virais e outras ameaças globais para a geração vindoura.  

A história o ensina e assim o devemos exigir.

Nuno Gomes
Membro da Comissão Política do PDR