Fazendo uma pequena analogia com a tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, na peça escrita por William Shakespeare, ser ou não ser Deputado em exclusividade não deveria ser uma questão complexa, mas tem sido, talvez, a única que desde sempre conseguiu unir todos os partidos e a maioria dos deputados num objectivo comum, que foi o de nunca terem aprovado uma lei que impeça os nossos representantes na Assembleia da República de desempenhar outras actividades ou funções, para além daquela para a qual foram eleitos pelos portugueses, ou seja, a função de deputado.

Mas, na verdade, a suposta questão complexa devia ter uma resposta dos deputados muito simples, pois para se ser o representante de milhares de eleitores e respeitá-los com a dignidade que se exige, um deputado tem de trabalhar em exclusivo para que as necessidades dos portugueses sejam colmatadas.

Relembramos que o PDR sempre defendeu e continuará a defender a exclusividade de função de deputado na Assembleia da República, para que fosse mais eficaz a luta contra a corrupção que existe nos círculos do poder e que ninguém se propõem a acabar.

É inadmissível observarmos que o povo Português elege um deputado e constatar, depois, que esse deputado passa mais tempo no exercício de funções noutra instituição, pública ou privada, e que de vez em quando consegue comparecer na Assembleia da República, ou que em muitas ocasiões peça a alguém que assine a sua presença, para ele não perder o direito ao subsídio mensal.

Esta situação acontece reiteradamente com a conivência de muitos deputados e só quando o “esquema” é denunciado publicamente é que a comunicação social o divulga, como já aconteceu por variadas vezes.

E assim, vamos constatando que a maioria dos deputados vão continuando a exercer funções em outros locais que não na Assembleia da República, sendo que tal sucede maioritariamente em grandes escritórios de advocacia, que depois até são contratados a peso de ouro pelo próprio Estado para dar Pareceres ou em lugares específicos em órgãos de instituições que permitem controlar determinado sector ou actividade.

A título de exemplo, esta semana os portugueses ficaram a saber que a Deputada do Partido Socialista, Cláudia Santos, foi nomeada para o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa da Futebol.

Entre o cargo de deputada, de professora universitária e membro do Conselho de Disciplina da FPF, questionamos como é que a Dra. Cláudia Santos consegue dignificar e tem tempo para a única função pela qual foi eleita pelos portugueses?

Na verdade, continuamos a assistir ao despudor de António Costa em nomear a família e amigos socialistas para cargos do Governo, da Assembleia da República e, como já referimos acima, em órgãos de instituições que permitem controlar, directa ou indirectamente, determinado sector ou actividade.

Na peça de Hamlet o problema central era a sua família, mas António Costa parece-nos muito mais inteligente do que foi o príncipe da Dinamarca, pois o seu objectivo, para além de unificar a “família socialista”, como a abstenção continua a ser a maioria em Portugal, quantos mais “amigos socialistas” ele conseguir nomear para os cargos que vão aparecendo por aí, mais votos continuará a conseguir para o Partido Socialista.

Mas o mais insólito ou talvez não, porque também aí são deputados do Partido Socialista a decidir, é constatar que a própria comissão parlamentar da Transparência da Assembleia da República considerou compatível que uma deputada possa presidir ao Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol.

Assim, de repente, vem-nos à memória para que serão discutidas leis na Assembleia da República que poderão incidir sobre o desporto e, especificamente, sobre a Federação Portuguesa de Futebol, pelo que, neste e noutros casos, apontamos a questão da dignificação da actividade parlamentar na Assembleia da República para todos os representantes do povo português deixarem de brincar aos deputados.

O PDR não aceita que a função de deputado continue a ser ridicularizada e desprezada por aqueles que apenas se querem aproveitar do “elevador do poder”.

Ser deputado tem de ser uma vocação e um dos pontos altos de uma carreira política e não apenas mais um patamar para alcançar uma reforma dourada numa qualquer empresa privada.

Porque é imperativo começar a mudar o paradigma da política actual, e porque o Primeiro-ministro nada faz quando o assunto tem a ver com deputados ou ministros socialistas, porque o Governo nada quer fazer, porque os deputados, mesmos aqueles que sempre afirmaram que jamais iriam exercer outras funções, nada fazem e porque a Comissão Parlamentar da Transparência concluiu que nada tem de fazer, consideramos que devia ser a própria deputada Cláudia Santos a mostrar-se indisponível para desempenhar outras funções que não aquela para a qual foi eleita, nomeadamente a de representar os portugueses na Assembleia da República, pois só assim estaria a dignificar a função de deputada e a mostrar respeito pelos portugueses.

Por último, o PDR exige que os deputados tenham respeito por Portugal, pelos portugueses e que, de uma vez por todas, imponham a exclusividade de funções a quem representa o povo na Assembleia da República, porque conduzir os destinos de um país não pode ser um mero part-time ou uma alavanca para assegurar o futuro.